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22 de Março de 2011 - 16h29

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Ucrânia
O mestre das sete vidas promete lutar a partir da prisão
Por João Ruela Ribeiro

O ex-Presidente georgiano caiu em desgraça, levantou-se, voltou a cair e agora quer ser o líder da oposição ucraniana, apesar de ser apátrida e procurado pela polícia. O ex-Presidente georgiano caiu em desgraça, levantou-se, voltou a cair e agora quer ser o líder da oposição ucraniana, apesar de ser apátrida

Milhares de pessoas responderam este domingo ao apelo de Mikheil Saakashvili, o antigo Presidente da Geórgia que é agora a principal figura da oposição ao Governo ucraniano. Ocuparam a Praça da Liberdade, no centro de Kiev, para exigir a libertação de Saakachvili, detido na sexta-feira, três dias depois de ter humilhado os serviços secretos, fugindo com o apoio de centenas de apoiantes a uma primeira tentativa para o prender.

Os mesmos apoiantes que este domingo sairam à rua empunhando cartazes com a cara do Presidente, Petro Poroshenko, atrás de grades. 

Pouco antes de ser preso, Saakashvili tinha usado o Facebook para pedir aos apoiantes para fazerem deste um fim-de-semana de protestos. Mandou-os para a Praça da Liberdade - também conhecida por Maidan (Europa), o nome que teve durante a revolta que derrubou o chefe de Estado anterior, o pró-russo Viktor Ianukovich. A praça encheu-se de gente.

"Receio que o nosso governo se esteja a desmoronar. A Ucrânia vai na direcção do abismo e a população está cada vez mais pobre. A corrupção é omnipresente e as autoridades não fazem nada", disse à agência AFP um manifestante, Nikolai Charapa, de 58 anos. 

Muitas dezenas também se concentraram à porta do centro de detenção onde está Saakachvili. Fizeram fogueiras e garantiram que não saem dali até que seja libertado.

Mikheil Saakachvili foi acusado de estar a fomentar um golpe de Estado na Ucrânia com o apoio da Rússia - o que ele desmente. Conhecido por ter uma personalidade abrasiva e rebelde, mesmo atrás das grades está preparado para continuar a sua luta - seja ela qual for.

Não há muito tempo, Saakashvili e o Presidente Petro Poroshenko pareciam um par perfeito, juntos na missão de modernizar o país. Em Maio de 2015, o ex-Presidente georgiano foi nomeado governador de Odessa, com um mandato reformista para erradicar as práticas corruptas da região portuária. Saakashvili adoptou a nacionalidade ucraniana e tornou-se num dos símbolos da nova Ucrânia que se queria libertar dos hábitos soviéticos.

Um legado controverso

As suas credenciais vêm dos dez anos em que governou a Geórgia, onde promoveu reformas radicais na luta contra a corrupção. Depois de liderar um movimento de contestação popular que ficou conhecido como "Revolução Rosa", em 2003, contra o então Presidente Eduard Shevardnadze, Saakashvili venceu de forma retumbante as eleições do ano seguinte.

O ex-advogado não deixou pedra sobre pedra na Geórgia, revolucionando a administração pública, a justiça e as forças de segurança. No Ocidente, Saakashvili era acarinhado e mostrado como um bom exemplo reformista para ser seguido por outros Estados pós-soviéticos. Um dos líderes de quem foi mais próximo foi o Presidente norte-americano George W. Bush - Saakashvili estudou alguns anos em Nova Iorque.

A queda do líder georgiano foi tão estrondosa como a sua ascensão. Para atingir os seus objectivos ambiciosos, Saakashvili não olhou a meios e os tribunais passaram a ser impiedosos. A Geórgia tornou-se num dos países europeus com populações prisionais per capita mais elevadas e, nas prisões, eram frequentes as torturas e violações.

A guerra desastrosa com a Rússia no Verão de 2008 por causa da região separatista da Ossétia do Sul - que teve um pesado custo humano para a Geórgia e redundou numa derrota - também se virou contra Saakashvili. Sairia amplamente derrotado nas eleições de 2013 e, pouco depois, era acusado de abuso de poder e desvio de dinheiro público pela própria máquina judicial com que tinha assombrado os seus inimigos.

Viu-se privado da nacionalidade georgiana e fugiu para os EUA.

Foi a partir do exílio no bairro chique de Williamsburg, em Nova Iorque, que Saakashvili acompanhou o movimento de protesto - que muitos compararam à sua "Revolução Rosa" - que levou à queda de Ianukovich e à chegada ao poder do seu antigo colega de escola Poroshenko. 

Tudo conflui agora numa perigosa batalha de egos. Em Odessa, Saakashvili foi obstinado e excessivo, como sempre, chegando a participar em sessões de treino com a polícia local. Aproveitando uma viagem que fez ao estrangeiro, o Presidente da Ucrânia retirou-lhe a cidadania, impedindo-o de regressar à Ucrânia.

Mais uma vez, a força de vontade de Saakashvili parece ter sido subvalorizada. Depois de passar algum tempo em Varsóvia, na Polónia, decide passar a fronteira a pé e nem mesmo o escudo humano formado pela guarda fronteiriça foi capaz de o impedir.

Depois de se encontrar novamente apátrida e perseguido pelas autoridades, Saakashvili reinventou-se, autoproclamando-se líder da oposição a Poroshenko e fundou um partido, o Movimento das Novas Forças. Quer que o Parlamento abra um processo de destituição contra o Presidente e diz estar disponível para chegar a primeiro-ministro. "Iremos procurar os ucranianos que se importam com a Ucrânia, que a respeitam e que querem desenvolvê-la", disse no mês passado a um grupo de apoiantes.

Apesar de ser um homem procurado, o ex-Presidente e ex-governador passou os últimos tempos numa digressão pela Ucrânia para promover o seu partido. Os seus detractores acusam-no de fazer da política um circo e, quando esteve em Dnipro, em Setembro, o autarca da cidade aprovou um decreto levantando a proibição dos circos de rua para coincidir com o comício Saakashvili . Este não ignorou a provocação e agradeceu a atenção, convidando o autarca a participar numa "trupe de sacanas brutamontes".

Saakashvili, suspeito de ter recebido dinheiro de próximos de Ianukovich para as suas actividades políticas, não foi ainda formalmente acusado de qualquer crime. O que não impediu o procurador-geral ucraniano, Iuri Lutsenko, de ordenar a sua detenção, por suspeita de "ligações a grupos criminosos". 

Às primeiras horas da manhã de terça-feira, um grupo de agentes dos serviços secretos ucranianos entrou no apartamento de Saakashvili, no centro de Kiev. Já se sabia que não se entregaria facilmente, mas provavelmente ninguém teria preparado os agentes para o que se seguiu. Saakashvili conseguiu escapar para o telhado do prédio, chegando mesmo a ameaçar atirar-se.

Depois de momentos de grande tensão, concordou em sair sob custódia. Tudo parecia encaminhado, mas, como em tantos outros momentos da vida de Saakashvili, o inesperado voltou a ser a regra. Quando os agentes tentaram obrigá-lo a entrar na viatura policial, centenas de apoiantes do ex-líder georgiano montaram barricadas e confrontaram a polícia, acabando por conseguir libertá-lo. Após várias dias de buscas, a prisão acabou por acontecer durante a noite de sexta-feira, desta vez longe dos olhares dos apoiantes. 

Por incrível que pareça, esta parece ser a situação mais confortável para Saakashvili - procurado, em fuga, odiado pelos poderosos. Os analistas dizem ter dúvidas sobre a sua capacidade de manter mobilizados os apoiantes de forma a gerar um movimento com o da Maidan.Milhares de pessoas responderam ontem ao apelo de Mikheil Saakashvili, o antigo Presidente da Geórgia que é agora a principal figura da oposição ao Governo ucraniano. Ocuparam a Praça da Liberdade, no centro de Kiev, para exigir a libertação de Saakachvili, detido na sexta-feira, três dias depois de ter humilhado os serviços secretos, fugindo com o apoio de centenas de apoiantes a uma primeira tentativa para o prender. Os mesmos apoiantes que ontem sairam à rua empunhando cartazes com a cara do Presidente, Petro Poroshenko, atrás de grades. 

Pouco antes de ser preso, Saakashvili tinha usado o Facebook para pedir aos seguidores para fazerem deste um fim-de-semana de protestos. Mandou-os para a Praça da Liberdade - também conhecida por Maidan (Europa), o nome que teve durante a revolta que derrubou o chefe de Estado anterior, o pró-russo Viktor Ianukovich. A praça encheu-se de gente.

"Receio que o nosso governo se esteja a desmoronar. A Ucrânia vai na direcção do abismo e a população está cada vez mais pobre. A corrupção é omnipresente e as autoridades não fazem nada", disse à agência AFP um manifestante, Nikolai Charapa, de 58 anos. 

Muitas dezenas também se concentraram à porta do centro de detenção onde está Saakashvili. Fizeram fogueiras e garantiram que não saem dali até que seja libertado.

Mikheil Saakashvili foi acusado de estar a fomentar um golpe de Estado na Ucrânia com o apoio da Rússia - o que ele desmente. Conhecido por ter uma personalidade abrasiva e rebelde, mesmo atrás das grades está preparado para continuar a sua luta - seja ela qual for.

Não há muito tempo, Saakashvili e o Presidente Petro Poroshenko pareciam um par perfeito, juntos na missão de modernizar o país. Em Maio de 2015, o ex-Presidente georgiano foi nomeado governador de Odessa, com um mandato reformista para erradicar as práticas corruptas da região portuária. Saakashvili adoptou a nacionalidade ucraniana e tornou-se num dos símbolos da nova Ucrânia que se queria libertar dos hábitos soviéticos.

Legado controverso

As suas credenciais vêm dos dez anos em que governou a Geórgia, onde promoveu reformas radicais na luta contra a corrupção. Depois de liderar um movimento de contestação popular que ficou conhecido como "Revolução Rosa", em 2003, contra o então Presidente Eduard Shevardnadze, Saakashvili venceu de forma retumbante as eleições do ano seguinte.

O ex-advogado não deixou pedra sobre pedra na Geórgia, revolucionando a administração pública, a justiça e as forças de segurança. No Ocidente, Saakashvili era acarinhado e mostrado como um bom exemplo reformista para ser seguido por outros Estados pós-soviéticos. Um dos líderes de quem foi mais próximo foi o Presidente norte-americano George W. Bush - Saakashvili estudou alguns anos em Nova Iorque.

A queda do líder georgiano foi tão estrondosa como a sua ascensão. Para atingir os seus objectivos ambiciosos, Saakashvili não olhou a meios e os tribunais passaram a ser impiedosos. A Geórgia tornou-se num dos países europeus com populações prisionais per capita mais elevadas e, nas prisões, eram frequentes as torturas e violações.

A guerra desastrosa com a Rússia no Verão de 2008 por causa da região separatista da Ossétia do Sul - que teve um pesado custo humano para a Geórgia e redundou numa derrota - também se virou contra ele. Sairia derrotado nas eleições de 2013 e, pouco depois, era acusado de abuso de poder e desvio de dinheiro público pela própria máquina judicial com que tinha assombrado os seus inimigos.

Viu-se privado da nacionalidade georgiana e fugiu para os EUA. Foi a partir do exílio no bairro chique de Williamsburg, em Nova Iorque, que Saakashvili acompanhou o movimento de protesto - que muitos compararam à sua "Revolução Rosa" - que levou à queda de Ianukovich e à chegada ao poder do seu antigo colega de escola Poroshenko. 

Tudo conflui numa perigosa batalha de egos. Em Odessa, Saakashvili foi obstinado e excessivo, como sempre, chegando a participar em sessões de treino com a polícia local. Aproveitando uma viagem que fez ao estrangeiro, o Presidente da Ucrânia retirou-lhe a cidadania, impedindo-o de regressar à Ucrânia.

Mais uma vez, a força de vontade de Saakashvili parece ter sido subvalorizada. Depois de passar algum tempo em Varsóvia, na Polónia, decide passar a fronteira a pé e nem mesmo o escudo humano formado pela guarda fronteiriça ucranianafoi capaz de o impedir.

Reinvenção

Depois de se encontrar novamente apátrida e perseguido pelas autoridades, Saakashvili reinventou-se, autoproclamando-se líder da oposição a Poroshenko e fundou um partido, o Movimento das Novas Forças. Quer que o Parlamento abra um processo de destituição contra o Presidente e diz estar disponível para chegar a primeiro-ministro. "Iremos procurar os ucranianos que se importam com a Ucrânia, que a respeitam e que querem desenvolvê-la", disse no mês passado a um grupo de apoiantes.

Apesar de ser um homem procurado, o ex-Presidente e ex-governador passou os últimos tempos numa digressão pela Ucrânia para promover o seu partido. Os seus detractores acusam-no de fazer da política um circo e, quando esteve em Dnipro, em Setembro, o autarca da cidade aprovou um decreto levantando a proibição dos circos de rua para coincidir com o comício de Saakashvili . Este não ignorou a provocação e agradeceu a atenção, convidando o autarca a participar numa "trupe de sacanas brutamontes".

Saakashvili, suspeito de ter recebido dinheiro de próximos de Ianukovich para as suas actividades políticas, não foi ainda formalmente acusado de qualquer crime. O que não impediu o procurador-geral ucraniano, Iuri Lutsenko, de ordenar a sua detenção, por suspeita de "ligações a grupos criminosos". 

Às primeiras horas da manhã de terça-feira, um grupo de agentes dos serviços secretos ucranianos entrou no apartamento de Saakashvili, no centro de Kiev. Já se sabia que não se entregaria facilmente, mas provavelmente ninguém teria preparado os agentes para o que se seguiu. Saakashvili conseguiu escapar para o telhado do prédio, chegando mesmo a ameaçar atirar-se.

Depois de momentos de grande tensão, concordou em sair sob custódia. Tudo parecia encaminhado, mas, como em tantos outros momentos da vida de Saakashvili, o inesperado voltou a ser a regra. Quando os agentes tentaram obrigá-lo a entrar na viatura policial, centenas de apoiantes do ex-líder georgiano montaram barricadas e confrontaram a polícia, acabando por conseguir libertá-lo. Após várias dias de buscas, a prisão acabou por acontecer durante a noite de sexta-feira, desta vez longe dos olhares dos apoiantes. 

Por incrível que pareça, esta parece ser a situação mais confortável para Mikheil Saakashvili - procurado, em fuga, odiado pelos poderosos. Mas os analistas dizem ter dúvidas sobre a sua capacidade de manter mobilizados os apoiantes de forma a gerar um movimento como o da Maidan.



Fim

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