Silêncio e alguma indiferença. A reunião do grupo parlamentar do PSD de ontem foi abalada pela proposta do deputado José Pacheco Pereira para criar, no Parlamento, uma comissão eventual de acompanhamento da corrupção na administração pública. A direcção da bancada de José Pedro Aguiar-Branco deixou Pacheco sem uma só palavra em público. Nos bastidores, o que sobressaíram foram dúvidas. A ideia de Pacheco Pereira na reunião, em que Manuela Ferreira Leite não esteve presente, foi interpretada como uma forma de o PSD recuperar a iniciativa política, numa altura em que a corrupção está, de novo, na agenda. Um timing que se cruza com o processo Face Oculta, em que é arguido o ex-ministro socialista Armando Vara, agora administrador do BCP com mandato suspenso. E é nas escutas do caso que surgem conversas entre Vara e José Sócrates. A proposta poderia ser uma forma de o Parlamento dar um sinal de preocupação para tratar um assunto importante como é a corrupção - e nisso é acompanhado por alguns deputados. Pacheco Pereira admitiu que a comissão que sugeriu é polémica, por poder atingir o seu partido, mas mesmo assim defendeu a sua criação. E se na reunião Aguiar-Branco ignorou a ideia, depois da reunião Pacheco continuou sem resposta. Um membro da direcção da bancada do PSD afirmou ao PÚBLICO que há algumas dúvidas quanto à comissão, embora a posição formal seja remetida para mais tarde.Esta é já a segunda vez que a direcção do grupo parlamentar não acompanha uma proposta de Pacheco, desde o seu regresso ao Parlamento, após as eleições de 27 de Setembro. A primeira foi a sugestão, no debate do programa do Governo, de responsabilizar os governantes na nomeação de presidentes e administradores de empresas públicas ou com capitais estatais. O mais que ouviu da liderança da bancada é que a ideia merecia uma reflexão. Dúvidas e alertas Fernando Negrão, deputado e ex-director da PJ e um dos "rostos" da justiça na bancada do PSD, não exclui a hipótese de ser criada a comissão de acompanhamento, mas avisa, desde já, que existem alguns riscos. Ainda há poucos meses foi criado, por proposta do PS, o Conselho de Prevenção da Corrupção, liderado por Guilherme d"Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas. Pelo que é necessário "acautelar que não pode haver uma sobreposição de competências das duas comissões", afirmou ao PÚBLICO o ex-director da Judiciária.Outros parlamentares têm dúvidas quanto à eficácia da comissão de acompanhamento. Ao contrário das comissões de inquérito, por exemplo, seria mais difícil a uma comissão de acompanhamento obter informações de entidades oficiais. O Parlamento tem agendado para 3 de Dezembro um debate de várias propostas anticorrupção do Bloco de Esquerda, incluindo a criminalização do enriquecimento ilícito, a exemplo do que propõe o PCP. O PSD apresenta as suas propostas até final do mês e o PS criou uma comissão de trabalho para preparar as suas alterações à lei.Na reunião, José Luís Arnaut voltou ao fim do crédito das "milhas" para os deputados que viajam em missão oficial, insistindo que deveriam reverter para organizações não governamentais.