Lembram-se de Sócrates invocar que o megalómano TGV Lisboa-Madrid teria de ser feito, mais não fosse para honrar os compromissos ibéricos assumidos pelo Governo do PSD na cimeira da Figueira da Foz? Pelos vistos, há compromissos que são mais compromissos que os outros... De outro modo, como se pode excluir desse mesmo compromisso a ligação ferroviária, em bitola europeia, entre Aveiro e Salamanca/Medina del Campo, a concluir até 2015, que também fora decidida nessa cimeira e garantiria o escoamento das nossas mercadorias para Espanha e para a Europa, através dos corredores de Irun e Barcelona, diminuindo a nossa dependência da rodovia? Ora, como o PÚBLICO revelou, esse troço não consta do plano de infra-estruturas espanhol, pelo menos até 2020. Resta a dúvida se se tratou de uma decisão unilateral dos espanhóis e acatada pelo nosso obediente Governo, ou se houve um acordo secreto entre os dois governos, como é lícito suspeitar. É que, do nosso lado, apesar das garantias perfunctórias que foram sendo dadas pela Rave e pela anterior secretária de Estado de que essa ligação não "morrera", também nada foi feito, nem há sequer datas para início dessa obra. Seja como for, esta é apenas mais uma das muitas mentiras de quem nos governa, e com as quais nos vamos resignando a conviver. Mas, pelos vistos, houve aqui, também, uma maquinação. Disse João Cravinho que há muito duvidava que essa linha alguma vez viesse a ser construída, e concluiu "que foi o Porto que se deixou enganar". Ou seja, está a dizer que o desenho da rede em "pi" foi um cavalo-de-Tróia, urdido para persuadir o Porto a aceitar que se abandonasse o desenho em T (que previa a equidistância de Lisboa e Porto a Madrid através de uma única ligação a Espanha), e aceitasse a construção de uma linha directa entre Lisboa à capital espanhola a troco de uma promessa falsa de também se construir a ligação de Aveiro a Salamanca. Ora, para quem não sabe, a mudança de desenho aconteceu durante o Governo Guterres e Cravinho saberá, por isso, do que fala, quanto refere que se tratou de um embuste. Mas o antigo ministro das Obras Públicas engana-se, se pensa que o prejuízo é só para o Porto. As péssimas decisões, quer as visíveis, quer as furtivas, que também vão sendo tomadas na ferrovia, são prejudiciais para o todo nacional. Era Portugal, e não o Porto, que precisava que fosse dada prioridade ao bom investimento público, em projectos que contribuem para facilitar as exportações. Ao invés, e como disse Álvaro Costa, "em vez de se estreitar e consolidar a faixa atlântica, está-se a drenar os seus recursos ao sabor do centralismo de Madrid".Fui um dos que defenderam a importância crucial dessa ligação ferroviária, como pipeline para as nossas exportações. Julguei que seria feita, não porque acredite no valor das promessas destes nossos governantes, mas porque me parecia que esse investimento era tão prioritário e evidente que não poderia deixar de ser feito, até porque nunca ouvi alguém que contestasse a sua importância. Afinal, quem manda e decide estas coisas, neste país do faz de conta com vícios de rico e bolsos rotos, não só não é de confiança como nem sequer entende, ou respeita, o interesse estratégico nacional. Economista (rumor1956@gmail.com)